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Crônica: Sobre avó, dança e chuvas de verão

Minha avô era uma portuguesa austera que morreu aos 92 anos em 1996. Nessa época, de austera já tinha se transformado em criança, conquistando a simpatia de todos. Gostava de dançar nos almoços-dançantes das casas portuguesas. Onde, aliás, aprendi a gostar de dançar a dois, vendo aqueles casais de décadas de casamento bailando na pista, a família toda em volta – mas isso eu deixo para contar depois.

Voltando à minha avó, eu, como neta mais velha, era a incumbida de lhe dar assistência, levá-la aos médicos, tratar com as enfermeiras... e cuidar da sua terapia ocupacional. Dentre muitas formas de tentar fazê-la se movimentar, além da dança eu a levava até o terraço, mostrava-lhe o jardim e pedia-lhe para regá-lo, pois o sol quente do verão iria secá-lo. Ao que ela sempre resmungava, contrariada em ter que fazer aquele serviço: “- não precisa, Deus vai regá-lo”.

De fato, ao final da tarde lá vinha a pancada de chuva para refrescar o ar e lavar as calçadas, naquela época já tão maltratadas (mas não tanto) como agora. Era isso principalmente no final de março, quando vira e mexe ocorriam aquelas enchentes catastróficas que agora vemos no noticiário paulista. Lembro-me de uma pancada de chuva nos anos setenta antecedida de um vendaval fortíssimo, quase um tufão. A espreguiçadeira do terraço foi parar em cima da banda de jornal lá embaixo. Do guarda-sol nunca mais tivemos notícia. A cidade ficou boiando, a garagem inundada, e todas aquelas desgraças mostradas nos jornais e tv.

Bem, estou a recordar isso porque ontem, depois de vários dias aguardando que a chuva de verão chegasse para regar o jardim, eu resolvi fazê-lo – e, aí, finalmente, a chuva chegou (e eu me lembrei da minha avó).

Fiquei então pensando como estava fazendo falta esta chuvinha de fim de tarde, que há muito tempo não cai por aqui. E como ela poderia atrapalhar os bailes da programação de domingo se ela fosse tão forte como as de antigamente. Mas não foi. Serviu apenas para lavar um pouco as calçadas e regar – de novo – o meu jardim. O que já não era sem tempo, é verdade, pois estava dando pena a mata seca nos morros e o gramado do Aterro do Flamengo.

A rega do jardim, a chuva depois, os comentários de minha avó, o cheirinho de terra molhada... Tudo isso também me fez lembrar alguns percalços por que passei quando comecei a freqüentar bailes de dança de salão e era pega por essas então comuns mudanças climáticas.

No Ginga Brasil, lembro-me de um lance tragicômico. O temporal ficando cada vez mais forte e eu, que estava gostando muito do baile, dizendo ao meu parceiro que tínhamos que esperar a chuva passar. “Leonor, a chuva está ficando mais forte, as águas estão subindo...”, dizia Aragão. “Que nada, é chuva de verão, logo passa”, dizia eu. Algum tempo depois alguém comentou que a água já atingira o terceiro degrau da escada. Corremos para janela e a Rua do Catete era um rio turbulento. Ninguém se atrevia a passar. Alguns motoristas de ônibus no início ainda se arriscavam, levantando ondas que já batiam na janela do carro do Aragão. O professor Zezé Magela, titular da Academia, consolava no microfone: - Calma pessoal, já liguei pro Noé e ele me disse que já está vindo com a Arca. Continuem formando pares e dançando porque ele dará prioridade aos casais. Apesar do aguaceiro, eu me diverti muito naquela noite. Nem liguei para os resmungos do parceiro enquanto tirávamos a água de dentro do carro com duas latinhas catadas no chão... Felizmente o carro não era nenhum desses modelos novos, com tudo eletrônico, que só de ver uma nuvem enguiça.

Outro lance memorável foi uma vez no então “Mudanças” (atual Centro Cultural Carioca, na Pr. Tiradentes). O temporal começou a desabar e a turma continuava a dançar sem se preocupar com o aguaceiro lá fora. Só começamos a nos incomodar quando o telhado não agüentou e começou a chover na pista, atrapalhando a dança, ora! A turma foi se chegando para o cantinho da pista ainda seco e se espremendo para dar continuidade à diversão quando... black-out na cidade! O que fazer isolado num recinto cheio de amantes da dança, sem música? O escurinho até que seria bem aceito, se tivesse fundo musical e pista seca. Foi quando o Isnard apareceu com dois pandeiros. Pronto, logo se fez uma roda, o pandeiro passeando pelas mãos dos mais tarimbados no instrumento, o repertório saindo do fundo do baú das memórias, e alguns casais até... arriscando uns passinhos no salão molhado. Porque quem gosta de dançar, dança até na chuva. Problemático foi convencer o povo, após as águas baixarem, que o tempo de baile perdido não poderia ser compensado com uma esticada no horário.

Fotos: Na primeira foto, minha avó na sacada de um prédio no Leblon (reparem o traje passeio completo, com lenço de seda no pescoço e luvinhas na mão). As demais foram pesquisadas no Google Images.

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